Dor: o princípio da Vida

Que graça há em viver uma vida fácil, se o princípio é em dor? A dor de nascer, da dificuldade que valoriza o que vem depois: o futuro. É considerada fácil uma vida entregue ao prazer. E que prazer é maior do que o sexo, princípio de vida? A moral censura o princípio da vida. Por desejo e prazer na facilidade do gozo, mais do que o próprio gozo, quantos nascimentos ocorrem por fecundação acidental? Pois talvez, nenhuma gestação tenha sido realmente acidental, nem mesmo as indesejadas. Tal 'acidente' não é consequência da facilidade do prazer, apenas, mas da busca inconsciente pela dor que a valoriza. A vida quer tanto viver, quanto desejamos ser eternos. Para prolongar nossa existência acidental, incidimos na continuidade do acidente em cada gozo indevido, displicência, camisinha furada ou erro de cálculo de tabela; a tabela periódica que diz: 'hoje pode, ou hoje não pode', e mesmo não podendo, gozamos, fecundamos, porque instintivamente o que se quer é a dor do novo parto que valorizará a vida como algo difícil. Por mais que se queira evitá-la, é rara a gravidez de fato indesejada. Eis o motivo do sexo ser tão prazeroso: ele deve compensar de maneira indescritivelmente prazerosa o que se sucederá e se justificará. No prazer do coito não é a facilidade do prazer que está em jogo, sim a dificuldade que estabelece o sentido de viver, numa constante busca compensatória e alternada de dor e prazer. O hedonismo e o masoquismo, assim como a paixão e o trágico, desejam o mesmo em momentos alternados. Se isso lhe parece estranho e contrário a tudo o que já ouviu e aprendeu, pergunto: — Acaso o inconsciente é conhecido? Na negação do conhecido e do aceitável, acende-se uma luz sobre ele e suas diversas sombras. A inveja, por exemplo, que não significa desejar o que o outro tem, sim desejar que o outro não tenha, repudia qualquer sinal de vida fácil no outro. As facilidades são invejadas porque são repugnantes. Dignas são as dificuldades e suas dores. O que custou a ser conquistado, tem valor e merece respeito. O que veio fácil, nem nós mesmos valorizamos. A inveja é um instrumento de censura e negação ao aparentemente fácil. E o aplauso é o reconhecimento do mérito pela força que superou as dores da conquista. Se doeu, valeu, fez por merecer. Assim, concomitantemente explico a inveja, o repúdio, o reconhecimento, as buscas hedonistas e as masoquistas, a superação. Chamamos de superação, cada vitória sobre uma dificuldade. Quanto maior for a dificuldade vencida, maior será a satisfação alcançada, ou seja, o prazer. Quanto maior o prazer, mais difícil terá que ser o próximo desafio para gerar a satisfação seguinte. A dinâmica dos vídeogames ilustram a dinâmica da vida, na qual cada fase superada resulta em outra ainda mais difícil. Não há sossego nos vídeogames. Não se joga pelo sossego. Joga-se pelo aumento do desafio: mais dor, para obter mais satisfação, para alimentar com mais força o que superará ainda mais dor. Toda a admiração pelos vencedores e recordistas advêm da referência de possibilidades ainda mais desafiadoras, quando aquelas que conhecemos já não nos satisfazem, nem como prazer, nem como dor. Não entendo, porém, de onde vem a necessidade de infligir dor ao outro, além das já impostas pela vida. Ou de alcançar a vitória mediante disputas. Ou do charlatanismo das sabotagens nas vitórias não merecidas. Ou da ganância que se disfarça de inveja. Todo charlatão é mau, porque deslegitima com a mentira o que seria a sua legítima dor e direito de superação honesta consigo e com os outros. A sabotagem é a maldade, porque tira do outro e de quem a comete, a oportunidade de superar-se. Enquanto que a dor me parece condição natural da vida e compreendê-la é resultado de sabedoria e inteligência, as disputas são completamente idiotas. São tão idiotas que imaginam espermatozoides disputando para chegar ao óvulo primeiro, quando na verdade "colaboram-se para que algum deles consiga fecundá-lo"*. Uma dor partilhada e recompensada pelas transformações da gestação, que se sucederá da dor do parto, da qual se sucederá toda a vida.

– Gutto Carrer Lima

(*) Alejandro Jodorowsky Prullansky, cineasta, ator, poeta, escritor e psicólogo chileno.

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