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Mostrando postagens com o rótulo Historinhas

Os amigos de Vissente

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Vissente era um carinha com dois S's no nome. Vissente via tudo "de dois", e por isso costumava enxergar os dois lados das moedas olhando apenas para um lado delas. É porquê, além de ver, Vissente também sentia. Certo dia, Vissente viu e sentiu que somente um de cada dez amigos que o elogiavam, falavam a verdade. Os outros nove disfarçavam a ironia pela frente, e riam pelas costas. Os elogios eram sarcasmo. Vissente também viu e sentiu que somente um de outros dez amigos que pegavam no pé dele, criticando-o 'pra cassete' (com dois S's), tentava alertá-lo sobre um terceiro ponto de vista que ele ainda não via. Os demais só queriam 'trollar' suas ideias para perturbá-llo (com dois L's). Vendo e sentindo isso, Vissente resolveu enxugar: agora ele tem dois amigos. Juntos formam um trio que verdadeiramente se veem, se sentem e se apoiam entre si. – Gutto Carrer Lima

Acho que vi um boizinho

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São três horas da manhã, a segunda madrugada do novo ano. Todos dormem tranquilamente enquanto leio sob céu aberto, sentindo a gostosa brisa típica do horário quando os frescores marítimos deslocam-se para as margens terrestres para inspirar a natureza com ares de renovação. A casa fica ao pé de uma serra, a oitocentos metros de uma praia isolada em área de proteção ambiental, acessível somente por uma estrada de terra. O terreno, cercado por muros, ainda não tem portão; o dois carros estacionados na entrada dão a sensação de privacidade, mas não impedem a entrada de quem quer que seja ao grande gramado com coqueiros, ali plantados há mais de dez anos. Estou na última página de um livro sobre alucinações visuais e auditivas que decorrem de anormalidades neurológicas e fisiológicas. Nunca me atentei ao cérebro e à relevância da sua anatomia, concentrando-me apenas na mente como principal responsável pelos nossos sentidos. Surpreendo-me por saber que a mente, sem um cérebro sadio, não...

Síndrome de Alienação

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A alienação lhe conferia um poder: o da autossuficiência, que debochava dos valores os quais se tornara imune e que há muito tempo já não faziam sentido. Ver de fora lhe aguçava tal visão. Olhos de raios-X, vendo a efemeridade dos esqueletos revestidos da fantasia que protegem os corpos e almas de perderem o prazer em viver. Quisera-lhe ainda possuir resquícios dessa ilusão. Sintomas de inveja nas pontas de seus pelos transpareciam ao se arrepiarem com o desejo de voltar a tê-los, ou com o ressentimento do dia em que foram perdidos. O desejo de desejar riscava uma faísca na inveja de invejar, só para resgatar a vontade do que deixou de fazer falta. Não sentir falta deveria ser felicidade, um sinal de plenitude. No entanto, apenas o provocava a "andar pelas ruas com uma placa pendurada no pescoço, dizendo: o fim está próximo". Um moribundo com vontade de viver, mas não neste mundo. Eis a falta: a de um lugar que corresponda ao ideal. Eis a distopia: quando você sai do mundo...

Escritor Virtual

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Chegará o dia em que o leitor encomendará livros (digitais, é claro 😶 ) a algum sistema de inteligência artificial mediante algum dispositivo eletrônico não disponível ainda, e o escritor virtual criará, de bate-pronto, uma história exclusiva baseada nos gostos e estilo preferido do leitor. O sistema de Inteligência Artificial perguntará: — Você quer rir? Chorar? Refletir? Gozar? Fantasiar? Viajar na maionese? Filosofar? Fugir da realidade? Aprender? Afirmar suas crenças? Transformar sua vida atual? O que você quer? Diga e eu escreverei a história que você deseja "ler"! E o escritor virtual, em questão de segundos, comporá uma história para o leitor do futuro, que por sua vez, não precisará nem se dar ao trabalho de ler – trabalho, de qualquer tipo, será coisa do passado. – A história será transferida diretamente para um chip de assimilação implantado no cérebro, que também será turbinado eletronicamente graças a uma nova tecnologia bioquântica. O café, aquele da imag...

O Destino Último

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Era uma nave tão grande que seria perenemente confundida com um planeta, não chegasse o dia em que ela finalmente pousaria no seu destino último: o mundo no qual todos deixariam de ser passageiros para se tornarem residentes perpétuos. Um desembarque de tamanha proporção não se fez instantaneamente. Demorou o equivalente a noventa anos da nave Terra para todos desembarcarem. Para alguns foi menos, para outros, mais, em função de seus lugares na fila ordenada que estabelecia o tempo de cada um. Enquanto ocorria, os passageiros na grande nave variavam distrações, entre dormir, despertar e entreter-se com ocupações que lhes davam um propósito imanente, ilusoriamente sustentado durante a viagem.  Um dia o desembarque seria concluído, e assim se fez. Todos acordaram de súbito num lugar que nada tinha de diferente da nave, exceto a sensação de definitivo que cada um sentiu imediatamente ao despertar. Ao desembarque, foram dadas diferentes denominações, segundo as crenças aprendi...

Potes e sacos cheios

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— Vivem reclamando que estão cheios, mas fazem de tudo para não se sentirem vazios – disse-me minha cachorrinha Capitu, tentando entender os humanos. – No seu questionamento, ela mostra entender gente, melhor do que muita gente nos seus vazios. Aprendi que "do pó viemos e ao pó voltaremos". O pó do carbono que veio das estrelas e se assentou na Terra para formar tudo o que nela existe e continuará se transformando. O pó da origem, do barro que fez os potes. Os potes que somos nós. Vazios porque terão seu tempo para serem enchidos. O tempo da vida que se preencherá das chuvas, gota por gota no seu devido tempo. Quanto mais novo o pote, maior o fascínio pela água do devir. Não é de se estranhar que o encanto diminua conforme o pote se encha, pois quanto mais cheio, mais pesado também se torna. Não é o peso da água, porém, que desconforta, porque sua limpidez tem o peso que podemos carregar. Também não é o peso do barro do qual ele mesmo é feito. O maior peso do pote está nas...

Os Três Pedidos

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Aos nove anos de idade, Ângelo era um menino questionador e sonhador. Questionava seus sonhos, e sonhava com o que lhe intrigava. Confundia-lhe os dias, o fato de nem sempre distinguir o que era sonho e realidade. Às vezes desejava que o sonho se realizasse, outras queria que a realidade fosse sonho, de modo que o sonho não precisasse dar-se o trabalho de se realizar, pois realidade já seria. Numa noite de sábado, Ângelo assistiu duas vezes seguidas o filme de animação em VHS que contava a história do gênio da lâmpada. Somente nas noites de sábado era permitido assistir TV até tarde, pois não precisaria acordar cedo para ir à escola no dia seguinte. Com o controle remoto do vídeo-cassete na mão, Ângelo adormeceu deitado em sua cama, antes do filme acabar. Ele já sabia o final, porém a história continuou diferente em seu sonho. Agora era ele mesmo quem encontrava o gênio! Como todo gênio que se preze, este se apresentou a Ângelo com a célebre saudação: — Salve, meu amo! Lisonjeado so...

Malandro amigo

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Ele era um cara estranho, meio boa gente, meio malandro-otário. Mais malandro que otário, mas era autêntico e julgava menos do que costumava ser julgado dado seu estereótipo nada enganador que dizia: não vacile comigo porque eu tô ligado que você também não é santo. Assim eu me resguardava mantendo uma certa distância, mesmo quando tomando cerveja juntos nos cabarés e dando muita risada. Ou nas tantas vezes em que ele me ajudava com trabalhos braçais, carregando caixas, subindo em escadas, consertando coisas e até ao meu carro. Apesar de pouco estudado, era inteligente, esperto e tinha a perspicácia dos artistas de improviso que vêem o mundo sem frescura e o encaram de frente. Ficávamos amigos, quanto mais percebíamos nas oportunidades que tínhamos de nos enganar, que estávamos ali para nos ajudar. – Gutto Carrer Lima

O Motorista e o Acostamento

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Dirigia, o motorista. Mais do que dirigir, viajar era sua rotina. Diariamente buscava seu destino, às vezes por estreitas rodovias de mão dupla, outras por largas vias de duas pistas com sentido único, agraciado pela existência de acostamentos de ambos os lados. Eventualmente, uma possibilidade de retorno lhe dava a chance de perguntar-se se queria voltar ou seguir adiante. A possibilidade de escolha, e não a falta de opção, reforçava sua convicção. Eram os acostamentos, porém, o que lhe davam segurança, porque por mais cauteloso, convicto e seguro que ele dirigisse, tranquilizava-o saber que teria uma área de escape caso precisasse fugir de um acidente. O motorista não os utilizava para trafegar, nem ao menos os percebia na constância do seu foco na rodovia à sua frente, mas sentia em seu íntimo que os acostamentos, na função marginal de simplesmente estarem ali, eram partes importantes do caminho. – Gutto Carrer Lima O Motorista e o Acostamento

Vila Alzheimer

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Eu me perdera ao afastar-me por uns instantes para explorar a redondeza, enquanto aguardávamos o conserto do ônibus que nos transportava numa eco-excursão por uma estrada de terra. Ao voltar, o cenário se modificara. Eu já não via os campos, lagos e árvores; somente a rodovia asfaltada na qual eu caminhava pelo acostamento esquerdo, indo e voltando à procura dos meus. Muitas pessoas ali esperavam sentadas na guia à beira do acostamento, mas nenhuma delas correspondia aos meus filhos. Eles não estavam ali, ou nós não nos víamos. Enquanto insistia na procura por toda a extensão do caminho, este afluía em ruas diversas, e depois em corredores que estreitavam entre paredes de tijolos aparentes e muros baixos por cima dos quais eu podia ver paisagens campestres. As paisagens eram lindas, mas onde estariam todos naquela vastidão? Se não estavam à frente, e se à frente não me seria possível seguir, eu teria que voltar. Também os corredores de volta ficaram estreitos; só poderia passar pulando...

Sempre Igual

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José vivia sentindo-se incompleto. Até seu nome, que quer dizer "aquele que acrescenta", cobrava-lhe deixar um rastro de realização por todos os lugares onde caminhava. De tanto cobrar de si mesmo, José queria mudar. Mudava de roupas, mudava companhias, mudava de lugares. Cada novo lugar, José também queria mudar. Não poupava esforços para adaptar tudo a ele, em vez de se adaptar. E assim, não importa onde ele estivesse, o mundo de José permanecia sempre igual.  Você pode moldar o lugar, ou ser moldado por ele. Algumas vezes será preciso moldá-lo, outras deixar-se moldar. – Gutto Carrer Lima Sempre Igual |   FRASES   |   CRÔNICAS   |   HISTORINHAS   |   POEMAS   |   MÚSICAS   |  POESIA  |   FILMES   |  

O Lugar que lhe Promete

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Prometheus era um jovem músico. Tocava tão bem seu instrumento que muitos paravam para ouvi-lo. Era emocionante ouvir as melodias que ele sozinho, tirava do seu cavaquinho. A música de Prometheus prometia, diziam, e assim passaram a lhe cobrar: — Você precisa também cantar! – De tanto ouvir, resolveu escutar, e começou a cantar. Mas Prometheus não cantava tão bem quanto tocava. E por cantar mal, deixaram de ouvi-lo tocar. Prometheus se entristeceu e emudeceu a voz, sentado na calçada com seu cavaquinho. Sem nada cantar, as pessoas novamente se admiraram de vê-lo tocar. E ele descobriu assim, que tocar era o seu lugar. – Gutto Carrer Lima O Lugar que lhe Promete |   FRASES   |   CRÔNICAS   |   HISTORINHAS   |   POEMAS   |   MÚSICAS   |  POESIA  |   FILMES   |  

Uma Linguagem Universal

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Ele era um ser fisicamente grande comparado às formigas. Por esta razão, não dava importância às formigas. Preferia olhar para o céu a olhar para baixo. Olhando para o céu, ele via naves e luzes. Fascinado com o que via, nem imaginava que os seres que lá estavam o viam como ele via as formigas; não por o considerar insignificante, mas por não existir qualquer chance de se comunicarem num nível compatível. Antes de se comunicar com os anjos das naves, ele haveria de aprender a se comunicar com as formigas, com os homens de todos os níveis e consigo mesmo. Qual seria, no entanto, a linguagem universal? – Gutto Carrer Lima |   FRASES   |   CRÔNICAS   |   HISTORINHAS   |   POEMAS   |   MÚSICAS   |  POESIA  |   FILMES   |  

Se eu imagino, existe!

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— Estava imaginando o que não existe, e me perguntei: — "imaginar o que não existe" é pleonasmo? — Não – disse-me Famy, minha psicóloga fictícia. – Você pode imaginar algo que ainda não conhece, apesar de já existir – completou ela. — Neste caso, tudo o que existe continua sendo imaginação, como o era quando ainda não existia. — Sim, como eu para você, e você para mim. – Gutto Carrer Lima Este é um espaço destinado às frases, crônicas e historinhas que não entraram no livro e a novos textos do autor. Escolha um tema pelo "Marcador". FRASES   |   CRÔNICAS   |   HISTORINHAS   |   POEMAS   |   MÚSICAS   |  POESIA  |   ERRATAS Copyright © 2017 Desapego

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