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Mostrando postagens com o rótulo Desapego Blog

Não é depressão, é desilusão

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Eu poderia facilmente autodiagnosticar-me deprimido. Dia sim, dia não, basta observar-me para detectar as características da depressão atuando em mim. Agora, por exemplo, não sinto disposição alguma para discorrer sobre o que seja a depressão. Bastaria buscá-la no Google e encontraria dezenas de descrições para reforçar meu autodiagnóstico. Chamada de 'doença do século' – que eu corrigiria para 'mal dos séculos pois invade o século 21 com ainda mais força e antídotos paliativos –, depressão me parece uma palavra coringa para definir todas as nossas insatisfações. Insatisfações coletivas resultantes de promessas não cumpridas, metas e desejos que sempre nos pareceram possíveis e que uma a uma foram perdendo a credibilidade. Se algum antídoto funciona, é porque não era depressão, afinal, deixa-se de acreditar, se não em tudo, em muito do que supostamente aliviaria ou 'curaria' dela. Como curar o que não é doença, sim a perda da ilusão? Desilusão é a palavra, que não ...

Os amigos de Vissente

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Vissente era um carinha com dois S's no nome. Vissente via tudo "de dois", e por isso costumava enxergar os dois lados das moedas olhando apenas para um lado delas. É porquê, além de ver, Vissente também sentia. Certo dia, Vissente viu e sentiu que somente um de cada dez amigos que o elogiavam, falavam a verdade. Os outros nove disfarçavam a ironia pela frente, e riam pelas costas. Os elogios eram sarcasmo. Vissente também viu e sentiu que somente um de outros dez amigos que pegavam no pé dele, criticando-o 'pra cassete' (com dois S's), tentava alertá-lo sobre um terceiro ponto de vista que ele ainda não via. Os demais só queriam 'trollar' suas ideias para perturbá-llo (com dois L's). Vendo e sentindo isso, Vissente resolveu enxugar: agora ele tem dois amigos. Juntos formam um trio que verdadeiramente se veem, se sentem e se apoiam entre si. – Gutto Carrer Lima

Suportar em nome do bom convívio

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Um cenário, por si só, não faz um sonho. O cenário requer atores, assim como a realização requer gente atuando de verdade. Pessoas veem o mundo de formas diferentes, e quando os pontos de vista conflitam-se, o cenário deixa de ser tão relevante. Cabe ao autocontrole e à tolerância, coexistir com os demais atores, também nos cenários ideais. E a maneira de tornar possível a coexistência é manter-se reservado, preservando os próprios valores para si, ao mesmo tempo em que participa socialmente do senso comum. O bom convívio exige a detecção de limites; devido ao risco que a autenticidade apresenta de abalar a convivência, convém resguardá-la. "Saber viver é saber conviver", é saber atuar, sem necessariamente ser hipócrita, mas praticando a diplomacia que distingue um propósito, de qualquer falsidade. Ser verdadeiro não é fácil; a verdade pode nos deixar sós, e a dependência, qualquer que seja, restringe a expressão da nossa verdade. A tolerância é uma relação de poder. Tolera ...

Colaborador de Deus

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Os diabos, os bodes expiatórios, foram "criados por Deus" para serem seus colaboradores. Pude compreender isso ao analisar o quanto posso propiciar "felicidade" para pessoas próximas ao permitir-me colocarem a "culpa" em mim. Aprendi que eu poderia reagir opondo-me a qualquer acusação injusta, embora de algum modo justificada pelas razões de quem acusa. Mas, por mais que eu me esforçasse em "corrigir-me" para aniquilar por completo um motivo de acusação, uma outra surgiria no seu lugar. Faço pessoas felizes, toda vez que permito, conscientemente, atribuírem a mim a culpa por suas insatisfações e incompetências de o serem por si mesmas. Sou o excluído que autoexclui-se. Sou o demônio de quem não quer se ver e do qual foge, mas adora ter por perto mesmo desejando-o à distância. Sou o que assume as dores de quem as projeta para que não as sinta. Sou um colaborador do seu Deus, que se mostra fraco para que se sinta forte. Não percebem que escolher...

O barato e o raro

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Quem escolhe pelo preço, também escolherá a você por ser o mais barato. Quem escolhe pela qualidade, o escolherá por ser mais raro. – Gutto Carrer Lima

O preço dos dias seguintes

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Sonhei que entrava por uma porta, numa casa que não era a minha. Não sentia estar invadindo; a entrada me era permitida desde que cuidadosa e respeitosa. Ao entrar, percorrendo o ambiente com o olhar, uma mulher me sorriu e logo vi que somente ela podia me ver. Levou-me para conhecer outros cômodos da casa, sem nunca desfazer o sorriso que me dizia: — Pode ficar para sempre, se quiser. – Uma parte de mim assim o queria, e outra sabia que não deveria. Os amanhãs cobrariam o seu preço, e o maior deles seria nunca mais repetir a sensação deste dia. – Gutto Carrer Lima

Síndrome de Alienação

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A alienação lhe conferia um poder: o da autossuficiência, que debochava dos valores os quais se tornara imune e que há muito tempo já não faziam sentido. Ver de fora lhe aguçava tal visão. Olhos de raios-X, vendo a efemeridade dos esqueletos revestidos da fantasia que protegem os corpos e almas de perderem o prazer em viver. Quisera-lhe ainda possuir resquícios dessa ilusão. Sintomas de inveja nas pontas de seus pelos transpareciam ao se arrepiarem com o desejo de voltar a tê-los, ou com o ressentimento do dia em que foram perdidos. O desejo de desejar riscava uma faísca na inveja de invejar, só para resgatar a vontade do que deixou de fazer falta. Não sentir falta deveria ser felicidade, um sinal de plenitude. No entanto, apenas o provocava a "andar pelas ruas com uma placa pendurada no pescoço, dizendo: o fim está próximo". Um moribundo com vontade de viver, mas não neste mundo. Eis a falta: a de um lugar que corresponda ao ideal. Eis a distopia: quando você sai do mundo...

Escritor Virtual

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Chegará o dia em que o leitor encomendará livros (digitais, é claro 😶 ) a algum sistema de inteligência artificial mediante algum dispositivo eletrônico não disponível ainda, e o escritor virtual criará, de bate-pronto, uma história exclusiva baseada nos gostos e estilo preferido do leitor. O sistema de Inteligência Artificial perguntará: — Você quer rir? Chorar? Refletir? Gozar? Fantasiar? Viajar na maionese? Filosofar? Fugir da realidade? Aprender? Afirmar suas crenças? Transformar sua vida atual? O que você quer? Diga e eu escreverei a história que você deseja "ler"! E o escritor virtual, em questão de segundos, comporá uma história para o leitor do futuro, que por sua vez, não precisará nem se dar ao trabalho de ler – trabalho, de qualquer tipo, será coisa do passado. – A história será transferida diretamente para um chip de assimilação implantado no cérebro, que também será turbinado eletronicamente graças a uma nova tecnologia bioquântica. O café, aquele da imag...

Venda ilusão, a realidade não existe

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E a cartomante me disse: — Venda ilusão, a realidade não existe. — E a ilusão, existe? — Cada vez mais! É real o que podemos tocar. Para além disso, é infinito. Infinito é o que não podemos alcançar. É o que está além da ponta dos meus dedos com os braços esticados. Se dou um passo, vou um passo além. A cada passo, mais a alcançar. Ouvi dizer que somos deuses, que tudo posso. Que pensamento cruel! Agora quero poderes de Deus. Quero ser onipotente, onisciente e onipresente. Afinal, sou Deus! E Deus, a tudo alcança. Se eu não alcançar, não sou Deus. Triste pretensão que me impede de conformar-me em ser uma célula, e faz desejar a abrangência. Queremos Tudo. Não nos basta o Aqui. Queremos o Todo. Não nos basta também o Lá. Quero o Aqui e o Lá, mas não posso ter Tudo; meus braços não alcançam. Para expandir o infinito, o amplio para o alcance do olhar, e o infinito se torna maior que os meus braços. Ainda é pouco. Para expandir a visão, a amplio para o alcance dos pensamento...

O Destino Último

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Era uma nave tão grande que seria perenemente confundida com um planeta, não chegasse o dia em que ela finalmente pousaria no seu destino último: o mundo no qual todos deixariam de ser passageiros para se tornarem residentes perpétuos. Um desembarque de tamanha proporção não se fez instantaneamente. Demorou o equivalente a noventa anos da nave Terra para todos desembarcarem. Para alguns foi menos, para outros, mais, em função de seus lugares na fila ordenada que estabelecia o tempo de cada um. Enquanto ocorria, os passageiros na grande nave variavam distrações, entre dormir, despertar e entreter-se com ocupações que lhes davam um propósito imanente, ilusoriamente sustentado durante a viagem.  Um dia o desembarque seria concluído, e assim se fez. Todos acordaram de súbito num lugar que nada tinha de diferente da nave, exceto a sensação de definitivo que cada um sentiu imediatamente ao despertar. Ao desembarque, foram dadas diferentes denominações, segundo as crenças aprendi...

Dor: o princípio da Vida

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Que graça há em viver uma vida fácil, se o princípio é em dor? A dor de nascer, da dificuldade que valoriza o que vem depois: o futuro. É considerada fácil uma vida entregue ao prazer. E que prazer é maior do que o sexo, princípio de vida? A moral censura o princípio da vida. Por desejo e prazer na facilidade do gozo, mais do que o próprio gozo, quantos nascimentos ocorrem por fecundação acidental? Pois talvez, nenhuma gestação tenha sido realmente acidental, nem mesmo as indesejadas. Tal 'acidente' não é consequência da facilidade do prazer, apenas, mas da busca inconsciente pela dor que a valoriza. A vida quer tanto viver, quanto desejamos ser eternos. Para prolongar nossa existência acidental, incidimos na continuidade do acidente em cada gozo indevido, displicência, camisinha furada ou erro de cálculo de tabela; a tabela periódica que diz: 'hoje pode, ou hoje não pode', e mesmo não podendo, gozamos, fecundamos, porque instintivamente o que se quer é a dor do novo p...

Abandono ou exclusão?

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Como eu poderia ter abandonado ao mesmo contexto que antes me excluiu? – A visão de quem vai e de quem fica se fixa no ponto que lhe causa menor dor. ( DesapEGO - O Livro , Capítulo Vida Extra, pág. 520) – Gutto Carrer Lima Foto: Antonio C P de Melo

Vida feita de quê?

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Me disseram: — "A vida é feita de escolhas." – E no meu íntimo acreditei que sem escolhas a vida não se faria; seria imprescindível ter o que escolher. Mas para escolher, é preciso responsabilidade; então pensei: — A vida é feita de responsabilidade. – E no meu íntimo a vida pesou, porque entre responsabilidade e desejo, descobri o dilema: — A vida é feita de dilemas. – No meu íntimo, agora conheci a angústia, porque angustiante é todo dilema: — A vida é feita de angústia. – Tantas vezes pareceu melhor não precisar escolher. Seria muito mais simples que escolhessem por mim. Não sentiria o êxtase da glória, mas também não teria o risco do arrependimento. De escolha, a vida se fez responsabilidade, dilema e angústia, entre glória ou culpa, sucesso ou fracasso, realização ou frustração, felicidade ou desgosto. Antes da glória, do sucesso, realização e felicidade, haveria uma grande decisão; uma grande angústia. Para diminuí-la, concluí: — A vida é uma chantagista e o tempo é o ...

Buscar ou esperar o encontro?

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Li por aí que a busca se opõe à oportunidade do encontro, levando a crer que para encontrar, não se deverá estar buscando. Eu também já escrevi que em determinado ponto de minha vida, parei de correr feito louco atrás das coisas para que as coisas pudessem me alcançar. – Afinal, buscar ou não buscar? Devemos permanecer inertes como um vegetal? Vamos pensar... 🤔 A palavra inerte nos remete, em princípio, a estar parado; porém, " inércia refere-se à resistência que um corpo oferece à alteração do seu estado de repouso ou de movimento"*. Ou seja: o que está em movimento, resistirá a parar, e o que está parado, resistirá a ser posto em movimento. Logo, se estou em constante busca, será necessária uma força maior do que a que me motiva, para me parar. E se vivo parado à espera de que algo aconteça, será necessária uma força maior para me colocar em movimento. Por isso dizem que é necessário mais energia para fazer o ventilador começar a girar, do que para mantê-lo girando. No ...

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