Síndrome de Alienação

A alienação lhe conferia um poder: o da autossuficiência, que debochava dos valores os quais se tornara imune e que há muito tempo já não faziam sentido. Ver de fora lhe aguçava tal visão. Olhos de raios-X, vendo a efemeridade dos esqueletos revestidos da fantasia que protegem os corpos e almas de perderem o prazer em viver. Quisera-lhe ainda possuir resquícios dessa ilusão. Sintomas de inveja nas pontas de seus pelos transpareciam ao se arrepiarem com o desejo de voltar a tê-los, ou com o ressentimento do dia em que foram perdidos. O desejo de desejar riscava uma faísca na inveja de invejar, só para resgatar a vontade do que deixou de fazer falta.

Não sentir falta deveria ser felicidade, um sinal de plenitude. No entanto, apenas o provocava a "andar pelas ruas com uma placa pendurada no pescoço, dizendo: o fim está próximo". Um moribundo com vontade de viver, mas não neste mundo. Eis a falta: a de um lugar que corresponda ao ideal. Eis a distopia: quando você sai do mundo estando meio morto, meio vivo, ele continua sem você. Seu lado vivo é morto para o mundo, e o lado morto suplica por ressuscitar. Não há meia vida. Ou se está vivo, ou se está morto. Ou você está no mundo com os dois pés, ou está flutuando feito alma sem corpo à espera do tempo acabar. Percepção do alienado com a placa pendurada no gargalo da alma.

A experiência não lhe permitiria fazer planos sem que reconstruísse uma rede real. Para que as conexões se estabeleçam, é necessário o objetivo em comum. Deve-se ter o que oferecer. Deve-se ser necessário. O que ele poderia oferecer que o tornaria imprescindível?

Seu lado morto para o mundo, porém vivo para ele mesmo, ainda perguntava se estaria ressuscitando ou se matando. Um deles teria que morrer para outro renascer. No dilema entre viver ou morrer, ou ele voltaria ao mundo, ou o mundo o expulsaria definitivamente. O desafio angustiante se fez: vivificar o corpo com mentiras, por sobrevivência física, sem porém, mortificar as verdades da alma. Seria possível tal vida dupla? Ou melhor dizer: vidas pela metade? O fim já se fora. O início estava próximo. Faltava-lhe apenas alguma coisa pela qual se entusiasmar. O materialismo lhe convidava a aceitá-lo como opção. Até que ponto lhe fizera bem saber que a Terra é redonda e azul? Tudo o que vem depois e vai além é incapaz de dar sossego. O infinito deixa qualquer um maravilhado demais, com azia de lactose, alienado numa galáxia emparedada pelos limites do intangível. Suficiente satisfação lhe daria olhar para o céu com a certeza de que isso é tudo, e é verdade. Terra Sol e Lua são de graça, mas para morar na galáxia é preciso pagar aluguel e a conta de luz.

– Gutto Carrer Lima



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