Venda ilusão, a realidade não existe

E a cartomante me disse:

— Venda ilusão, a realidade não existe.

— E a ilusão, existe?

— Cada vez mais!

É real o que podemos tocar. Para além disso, é infinito.

Infinito é o que não podemos alcançar. É o que está além da ponta dos meus dedos com os braços esticados. Se dou um passo, vou um passo além. A cada passo, mais a alcançar.

Ouvi dizer que somos deuses, que tudo posso. Que pensamento cruel! Agora quero poderes de Deus. Quero ser onipotente, onisciente e onipresente. Afinal, sou Deus! E Deus, a tudo alcança. Se eu não alcançar, não sou Deus.

Triste pretensão que me impede de conformar-me em ser uma célula, e faz desejar a abrangência. Queremos Tudo. Não nos basta o Aqui. Queremos o Todo. Não nos basta também o Lá. Quero o Aqui e o Lá, mas não posso ter Tudo; meus braços não alcançam. Para expandir o infinito, o amplio para o alcance do olhar, e o infinito se torna maior que os meus braços. Ainda é pouco. Para expandir a visão, a amplio para o alcance dos pensamentos. Agora sim, o infinito é imenso, imensurável e digno de assim ser chamado.

Só o pensamento pode estar Aqui e Lá: lá onde está o meu pai que partiu para uma outra dimensão; lá onde está a minha mãe, a alguns quilômetros daqui; nos três "lás" onde estão os meu filhos, cada um com seu próprio "aqui". – São os pensamentos que os alcançam, sem poder tocá-los ou vê-los, muito além de meus braços que os abraçariam. Se eles também pensam em mim num mesmo instante, faz-se a conexão: virtualmente nos tocamos.

A conexão é o nosso desejo de toque, de abrangência do Todo, do estar Aqui e Lá, da onipotência, onisciência e onipresença. Explica as redes sociais, que nada mais são do que a ilusão da realidade virtual, cada vez mais real, quanto mais ilusória.

Quantos são os realmente interessados no "Aqui", sem os "Lás" que os acompanham? Lá naqueles lugares. Lá naqueles tempos. Lá naquelas memórias. Lá naquelas presenças. Lá naqueles planos. Lá onde não estamos, mas existimos em pensamento.

— Venda realidade virtual; venda o infinito! – completou a cartomante. Este é o negócio do futuro. Por não se contentarem em ser célula, todos querem ser Deus.

– Gutto Carrer Lima









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