Felicidade de Mãe

Ela fica muito brava que a tampa da panela escape de suas mãos. Para ela, a culpa não é das suas mãos, é da tampa, que resolveu cair no chão! Nisso o telefone toca e ela fica imediatamente contente com quem está ligando; já nem pensa mais na tampa da panela. Em seguida, ranha com o pedreiro que fez o serviço mal feito, ou com quem guardou alguma coisa num lugar em que ela não está conseguindo achar. Mas nunca reclama da sua deficiência nos olhos que agravou-se desde sua infância até então. Disto, em ninguém ela coloca a culpa, nem em Deus! Nunca leu mensagens canalizadas ou foi beata de igreja, mas reza todas as noites antes de dormir por quem ela gosta e ama. Reza sem raiva ou tristeza, que ela não guarda nem alimenta. Com 81 anos, anda com dificuldade, e não para quieta fingindo que não se cansa. — Que cansada que nada! Tenho mais o que fazer do que ficar sentada! – E levanta cedo, mesmo quando atrasada.
De repente me pergunta:
— Guto, como vão as coisas? Tá feliz?
Eu digo que com toda a minha idade, ainda não aprendi direito sobre felicidade.
— Você não pode falar isso! Nada é como a gente quer! A gente tem que ser feliz do jeito que é, ué!!! – diz ela, lavando a forma do bolo que acabou de desenformar. E completa:
— Saco, viu! Esse forno deve estar desnivelado; tá deixando o bolo mais alto de um lado, mas eu compenso com o recheio! Vai ficar bom!
Minuto após minuto, vou percebendo o quanto ainda tenho a aprender com minha mãe. Em matéria de felicidade, ela ensina sem pensar no assunto. Tudo está bem pra ela, se a gente está junto.

– Gutto Carrer Lima


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