Vila Alzheimer

Eu me perdera ao afastar-me por uns instantes para explorar a redondeza, enquanto aguardávamos o conserto do ônibus que nos transportava numa eco-excursão por uma estrada de terra. Ao voltar, o cenário se modificara. Eu já não via os campos, lagos e árvores; somente a rodovia asfaltada na qual eu caminhava pelo acostamento esquerdo, indo e voltando à procura dos meus. Muitas pessoas ali esperavam sentadas na guia à beira do acostamento, mas nenhuma delas correspondia aos meus filhos. Eles não estavam ali, ou nós não nos víamos. Enquanto insistia na procura por toda a extensão do caminho, este afluía em ruas diversas, e depois em corredores que estreitavam entre paredes de tijolos aparentes e muros baixos por cima dos quais eu podia ver paisagens campestres. As paisagens eram lindas, mas onde estariam todos naquela vastidão? Se não estavam à frente, e se à frente não me seria possível seguir, eu teria que voltar. Também os corredores de volta ficaram estreitos; só poderia passar pulando por sobre os portões, carros e casas da vila em que eu me engendrara. Fui salvo da perseguição de um cão bravo, por um homem que inutilmente insistiu em me levar de volta à rodovia, numa grande camionete prateada. Se a pé eu não podia passar, quanto menos num carro tão largo. Tentativas em vão, continuei pulando de casa em casa, até que fui convidado a entrar pela porta aberta de um lar pobre. Usar o telefone seria uma chance, se um homem velho e magro, ancião da casa, não surgisse e quebrasse o aparelho enquanto eu discava. Meu desespero aumentava. Uma criança pedia desculpas pela atitude do velho caduco, tentando acalmar-me sob o olhar dos demais que cobravam-me uma ação, como se assistissem a um filme ansiosos pela cena seguinte. O único caminho que restava eram minhas lembranças. Somente através delas eu reconstituiria meus passos para chegar no ponto de partida. Mas elas também se dispersavam. Eu não apenas desconhecia onde estava, como não mais sabia de onde eu vinha, para onde iria e o por quê. Sentia que precisava encontrar os que me procuravam, mas eu não me lembrava quem eram, nem deles, nem de mim. Perdera, por esquecimento, minha identidade e todas as lembranças que davam a ela o seu sentido. Experimentara em sonho a sensação da morte da alma antes do corpo. Por intuição, uma voz me dizia que, exceto pela consciência de estar ouvindo-a, aquela vila se chamava Alzheimer.

– Gutto Carrer Lima

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