Amigos Inseparáveis

Em março de 2016, eu estava compilando crônicas, frases e poemas para compor meu livro que ainda não tinha título, e não sabia claramente o que ele queria ser. Enquanto trabalhava organizando a compilação, arriscava-me também a escrever alguns novos ensaios, no sentido de ensaiar mesmo. A um desses ensaios, dei o nome de "Amigos Inseparáveis". Pedi a Denise que o lesse e desse sua opinião. 

— Gutto, achei o texto profundo e acho uma responsabilidade enorme para mim, você se basear somente em minha opinião. – disse Denise. – Tenho uma amiga de infância, a Louise, que lê muito, adora ler e escrever. Você poderia enviar seu texto pra ela também opinar; o que você acha? - perguntou.

Enviei o texto para Louise, que me retornou no dia seguinte. Seu comentário me trouxe a segurança que eu precisava naquele momento para fazer do livro mais do que um agrupamento de textos anteriormente escritos, marcando o início de uma nova concepção para o projeto.

Um ano e meio depois, o livro estava concluído, sob o título: Desapego. Não o enviei a Louise,  porque mereceria ser entregue em mãos, na próxima oportunidade em que eu e Denise fôssemos ao Rio de Janeiro e poderíamos ir visitá-la.

Hoje, 01/12/2017, recebemos a notícia de que Louise faleceu, vítima de uma doença que vinha enfrentando e vencendo com sua vontade de viver.

As pessoas que amamos um dia deixam de Ser para tornarem-se Entes no destino inevitável da vida, porém continuam Sendo, continuam existindo na memória do que vivemos juntos, revivenciados como momentos que se tornam eternos.

Não cheguei a agradecer a Louise, dizendo-lhe o quanto ela me incentivou. Procurei seu comentário para registrá-lo aqui, no blog do livro, como parte importante de sua história. Tal foi minha surpresa ao reler suas palavras, como que deixando-nos uma mensagem de vida para este momento de luto, por ela. – O comentário está abaixo do texto a seguir, ao qual ele se refere. 


Amigos Inseparáveis

AMIGOS INSEPARÁVEIS

— Fazer a coisa certa, Guto... é o que todos queremos.
— Sim, Luigy! É isso! É o que eu sempre quis!
— Acha mesmo que é suficiente, Guto?
— Bem... em quase tudo o que fiz, geralmente considerei ser a melhor decisão. Acho que o problema não foi o que fiz, mas onde e quando. Me parece que sou ótimo para fazer a coisa certa na hora errada.
— A hora errada foi antes ou depois de quando deveria ter sido? – perguntou-me Luigy em tom de deboche amigo, meio que querendo empurrar as minhas fichas e derrubar minhas desculpas.
— Como poderia eu saber, se a preocupação com o que fazer já me tomava de angústia por ter que decidir?  – respondi. – O momento seria um mero detalhe; fazer era o que importava. – Dizer isso só fez sentir-me ainda mais idiota. Afinal, quem gastaria munição sem ter certeza de que o alvo está ao alcance? – Eu! Pelos tiros dados para todos os lados no simples prazer em atirar. Como todo prazer, cada tempo desperdiçado um dia me mandaria a conta. 
— Pior seria nada fazer. Ao menos você tentou, tomou uma decisão! – disse Luigy.
— Que clichê, Luigy! De você, não! Mas tá valendo, meu amigo! Obrigado por tentar! – eu disse.
Luigy já levantava as sobrancelhas olhando para o teto e inclinando a cabeça ao mesmo tempo em que disfarçava o suspiro seguido de um sorriso. Sua paciência de amigo mais velho eu já conhecia de longe, desde os tempos em que minha maior dúvida era escolher a cor de minha primeira motocicleta e ele me disse: — “Você tem que tirar carta primeiro, mas se vai comprar uma motocicleta, compre de qualquer cor desde que seja nova”.
Assim fui aprendendo a ouvir conselhos implícitos em metáforas. Claro que não os segui. Comprei a moto sem ter habilitação nem idade para tanto. Mais do que ter um documento que provasse minha capacidade de dirigir, importava eu tê-las, a habilidade e a motocicleta para obtê-la. Qualquer cor seria boa, desde que fosse nova, assim como toda decisão seria válida, desde que fosse autêntica.
A diferença de vinte anos na idade parece muito quando ainda se tem quinze. Ano após ano esta distância vai ficando irrelevante. Chegando aos cinquenta, um amigo de setenta não parecerá tão mais velho quanto um dia aparentou. Mas eu sei que ele me conhece mais do que um pai possa conhecer a um filho que ao crescer se distanciou.
Dentre meus acertos em horas erradas, colecionei muito mais do que a compra precoce de uma motocicleta na cor que eu queria e na hora que eu quis. Toda a minha vida esteve passos adiante deixando vazios impreenchíveis. Ao olhar para trás, veria o caminho percorrido, mas não enxergaria as pegadas que deveriam estar nas lacunas em que dei saltos em vez de caminhar.
— Guto, não é porque seja óbvio que você deva descartar como clichê. Por que não valoriza a coragem que teve, em vez de lamentar o resultado? Caminhos prontos existem, como clichês, o que não significa que você teria que tê-los tomado. Autenticidade, lembra? E você a teve. A vantagem dos caminhos prontos é que todos podem saber onde eles vão dar. Mas também não significa que todos chegarão lá. Existe o ditado: o prêmio é proporcional ao risco. Seu risco foi alto, algumas vezes o prêmio foi incrivelmente construtivo, outras a casa caiu, eu sei. Comigo também aconteceu, mas foi o contrário: fiz a coisa errada na hora em que estava tudo certo.
— Isso é mais fácil de enxergar, Luigy, porque você consegue identificar o que errou, onde e quando.
—Fácil de enxergar, doloroso de admitir, Guto. Mesmo acumulando experiência, não deixamos de errar, e é isto o que mais dói: não mudar. Você sabe que realmente mudou, quando realmente aprendeu. Se erra de novo, a lição pode ter sido boa, o aluno é que não assimilou direito. Eu fui esse cara por muito tempo – disse Luigy, rindo de si mesmo.
— Amigo véi, tenho a impressão de que estamos repetindo de ano! – eu disse, rindo com ele.
— E o tempo está passando, Guto! Fazer o quê? Lembra do Zé do Tanque, que tinha uma lavanderia na nossa rua? Ele vivia se lamentando por ter batalhado a vida inteira e nunca ter tido a ideia de franquiar o negócio. Acabou por adaptar a própria loja a uma franquia bem sucedida de lavanderias. Parou de reclamar, e hoje se reúne toda semana com outros franqueados, também divorciados, numa grande casa de praia; vão na quinta e voltam na segunda-feira. 
— Só trabalham na terça e quarta? – perguntei. 
— Fiz a mesma pergunta para o Zé, e ele me disse: – "A empresa não vai render mais do que rende, está tudo em ordem, os funcionários tocam o negócio, filhos com suas próprias vidas, ex-mulher casada com outro... E ricos não vamos mais ficar mesmo. Não há do que ficarmos nos culpando. Então, vamos aproveitar o tempo que resta, do jeito que gostamos e podemos!" – disse Luigy, lembrando a resposta do próprio Zé do Tanque.
— Está na hora, não é, Luigy...? Será a hora certa de eu também pensar assim?
— Depende...
— De quê? – perguntei.
— Depende se isso será suficiente.
— Suficiente para quê?
— Para você ver que não existe a hora errada para fazer a coisa certa – finalizou Luigy.

(Trecho do diálogo “Amigos Inseparáveis”, de Gutto Carrer Lima, que ficou de fora de Desapego - O Livro) – 13/03/2016

COMENTÁRIO DE LOUISE:

'' Breve o tempo de uma vida pra esmiuçar todo o nosso inconsciente... Conhecer-nos já é tarefa tão árdua, de certo estamos a caminho... Gosto da forma que o texto flui, compreensível, sem breques. Vai envolvendo e diz a que veio. "Véio" nada! O tempo dessa caminhada nada significa dentro da questão maior que é a imortalidade da alma. Amigos inseparáveis, personas diversas embutidas num só pacote, muita coisa pra fuçar, pra descobrir, pra megulhar... Tem que ir tocando junto, pois a viagem por vezes é tão solitária que chega a dar um certo medo, mas trata-se de algo que precisamos fazer, este mergulho em nossos sentimentos e a tentativa e erro repetidas à exaustão... Muita escolha errada, muita decisão certa, ao menos as que foram "a coisa certa". O fato é que o difícil é escolher, é decidir, tocar o barco com o leme na mão, e enfrentar o vento forte e as vagas de um mar que engole nossa mais forte decisão. Adorei, tocou-me, inspirou-me, emocionou-me, fez o papel das palavras que a arte enche de vida e move a vida pra frente. Gosto da filosofia, gosto da reflexão, gosto do texto. Fez-me bem!! Obrigada Gutto Carrer Lima ''

(enviado em 14/03/2016)

– Louise Maria Alves Caldas

— Gratidão, Louise, por fazer e ser parte da nossa história. Todas as Cores da Luz pra Você!

– Gutto Carrer Lima | 01/12/2017


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