Não é depressão, é desilusão

Eu poderia facilmente autodiagnosticar-me deprimido. Dia sim, dia não, basta observar-me para detectar as características da depressão atuando em mim. Agora, por exemplo, não sinto disposição alguma para discorrer sobre o que seja a depressão. Bastaria buscá-la no Google e encontraria dezenas de descrições para reforçar meu autodiagnóstico.

Chamada de 'doença do século' – que eu corrigiria para 'mal dos séculos pois invade o século 21 com ainda mais força e antídotos paliativos –, depressão me parece uma palavra coringa para definir todas as nossas insatisfações. Insatisfações coletivas resultantes de promessas não cumpridas, metas e desejos que sempre nos pareceram possíveis e que uma a uma foram perdendo a credibilidade. Se algum antídoto funciona, é porque não era depressão, afinal, deixa-se de acreditar, se não em tudo, em muito do que supostamente aliviaria ou 'curaria' dela. Como curar o que não é doença, sim a perda da ilusão?

Desilusão é a palavra, que não é doença; é uma condição, condicionada pelo acúmulo de frustrações, pelo conformismo obrigatório, pela desesperança que tira as vendas e faz enxergar o que não poderemos mudar. Pior do que tal impotência, é ter que conviver com o que não se muda. Circunstâncias, pessoas, oportunidades, tempo que passa, nostalgia, notícias ruins. Promessas: as que ninguém assume ter feito, as que não cumprimos, as que cumprimos sem nada ter prometido e muito pouco ter sido reconhecido.

Não, não estou deprimido. Estou desiludido. Não é depressão. É desilusão. A única cura efetiva para ela é ter a prova de que o desacreditado ainda possa ser realizado. Não precisa ser em um dia, mas não pode exigir dez anos. Depois dos cinquenta, cada dia vale cinco. Não tenho meio século para empurrar pra frente o que busquei por cinquenta anos e preciso para hoje, agora – outra palavra desiludida, porque vida é memória; não posso me esquecer de quem sou para continuar buscando o que nunca fui ou me cansei de ser.

Não me receitem antidepressivos. Mostrem-me um antidesilusivo. Qual seria? – A vida é linda e o mundo é ótimo. Até eu posso ser lindo e ótimo se encontrar o meu lugar nele. Um lugar de satisfação, independência e dignidade, no qual não haja ninguém querendo tirar-me dele, e ele de mim.

– Gutto Carrer Lima

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