No Presídio dos Desapegos

O que será que pensa um homem (ou mulher) no exercício do cargo que ao presidir a república, preside também as vidas de milhões de pessoas? "Preside" me lembra presídio. Etimologicamente, presidir é "sentar-se à frente", e presídio é a "guarnição que se põe à frente de uma praça para protegê-la". Os significados das palavras mudam, e por conta de quem as profere, muda nossa confiança. Em vez de guiados e protegidos, nos sentimos presididos numa prisão, com nossos sonhos penalizados pela impossibilidade de realizá-los. O pior mal para todos, é a perda dos bons hábitos que nos davam graça em viver, por força da obrigação de somente pagar contas para sobreviver. As recessões provocam isso. Se a sua graça é viajar, já não viaja tanto. A graça de ler já não lê um livro por mês; talvez uns dois por ano. A satisfação de usar boas roupas já não se importa de sair à rua usando chinelinho. O carro pelo qual babava dá lugar à consciência ecológica para justificar a bicicleta. O prazer de beber um ótimo vinho e degustar maravilhosos queijos se contenta com uma cervejinha no final de semana. – Quanto a isso, vale a companhia dos amigos, para os quais não mais compramos presentes porque "compreensivelmente" eles também não podem mais nos presentear. À parte de qualquer glamour por diferentes gostos, até a simplicidade é afetada pela prioridade em manter os filhos nas melhores escolas, o que tentamos, mesmo que atrasemos contas e, ainda que nossos nomes se negativem no SERASA, nosso orgulho por sermos corretos nos compromissos já não façam diferença, já que o que sujou, sujo está. Quando der, a gente limpa. Quando der, a gente recupera, se liberta do presídio que é ter uma nação mal presidida com demandas reprimidas. Há o risco de que quando der, as antigas graças tenham perdido a graça. Já é tarde quando perdemos os velhos bons hábitos de viver, massacrados pelo tanto faz que nos habitou em apenas sobreviver. Sim, nós suportamos o que não toleramos. Desapegamos tanto que nos aproximamos de merecermos o céu, quem sabe no mês que vem, no ano que vem, ou na próxima presidência. Pois que seja ainda nesta vida.

– Gutto Carrer Lima

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